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Liliana experimentava uma estranha calma.
Não sabia de onde, ou como tinha surgido,simplesmente viera.
Talvez por ter pensado que já perdera o medo de morrer.
Talvez por já se ter ajoelhado e prostrado por terra,fruto de desepero.
Talvez por já ter experimentado o peito cheio e imaginado que abraçara toda a gente, sem excepção.
Talvez por ter ardido toda.
Talvez por se ter entregue sem receio a uma e outra causa.
Talvez por ser esse o seu jeito,o seu modo de ser...talvez... A calma viera.Ficara.
O estranho começava a ser ela não se ir embora.
Liliana observava-se.
Fazia tudo igual, mas dentro de si sabia que não era mais a mesma.
Quantas vezes morrera? Quantas vezes já renascera dentro dela?
Era esta densidade que lhe tinha dado o mérito desta calma?
É que até estas perguntas, não tinham importância, eram uma espécie de entretém, como quem faz palavras cruzadas.
Sabia-se antiquíssima...
Os homens são crianças, pensava.
Ocorriam-lhe assim frases...
Olhava e via. O ouro e prata jorravam das folhas de hera, nas paredes de muros velhos. Olhava o céu azul e era como entrar por mar adentro. O calor da tarde fazia-se sentir sem ser demasiado.
Liliana agradecia cada passo.
Estava viva e consciente. Sabia que cada movimento seu, interferia com tudo o resto, mas não a paralisava. Tinha energia.
Amava cada pedra, cada mágoa, cada perca, e a energia sobrava.
A natureza cantava-lhe. O seu coração, ás vezes, parecia que ía explodir de alegria, com tamanha beleza...
Mas era só uma pequena exaltação dentro daquela calma...
( texto escrito em 16 de Março de 2007)
Lisboa 3 de Abril de 2009





